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domingo, 26 de maio de 2013

... o amor e o silêncio, de Raquel Ordones

Amo quando o silêncio chega e pinta meus momentos em cor de paz convertendo aquele alvoroço do dia a dia em tela perfeita de sossego.
Amo quando o mundo parece parar,
quando o silêncio me deixa pronta para novas ideias.
Amo erguer a minha volta muros vãos entre os quais eu refugio para dentro de mim!

Raquel Ordones

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Infinito, de Danniel Valente


Infinito

Entre tardes,
pétalas, pássaros
eu vi o seu olhar.

No leme da paisagem,
seus olhos como faróis
iluminavam o mar...

e os portos, as praças
as rochas, as plantas...

Eu vi o seu olhar
tocando meu mundo,
tornando-o infinito.

Danniel Valente

Chama, de Lena Ferreira


Chama

Deitada no teu peito, ternamente
coberta pelos dedos consagrados
isenta de pudor e de pecado
sussurro poesias lentamente

Percorro tua pele que, tão quente,
derrama-se em suores destilados
inflama, alma a alma, lado a lado
e aumenta o desejo já ardente

A chama acesa permanece pura
enquanto o amor no leito se derrama
num frenesi que beira à loucura

O tempo, adormecido, não reclama;
enquanto nós trocamos ternas juras
segredos viram cinzas nessa chama

Lena Ferreira

Tapete vermelho do amor, de André Anlub


Tapete vermelho do amor

Saiu a lista dos apaixonados do ano
nem sicrano, nem fulano
meu nome estava lá
foi magia
em primeiro lugar
quem diria
mas, por favor, não vão me alugar...

Já era de praxe
peguei pesado no sentimento
amei além da imaginação
não teve um sequer momento
que eu não tenha acertado na mão.

fiz o bê-á-bá certinho
o arroz com feijão.
Rezei conforme a cartilha
e para não perder-me na trilha
segui cada pedaço de pão.

Comecei como homem de lata
levei na lata, fiquei em frangalho.
Nunca levei jeito pra espantalho
sobrou muita coragem pro leão.

Por causa da inspiração
deixei de me acabrunhar num fosso
tornei-me de cerne, carne e osso
e fiz da poesia oração.

André Anlub®
(22/5/13)

Farol Solitário, de Helenice Priedols


Farol Solitário

há alguém que espera a morte
de espada desembainhada
há quem atenda a urgência
e abra as janelas
como um farol solitário
que se acende todos os dias
- haja navio ou não -
a paixão pela vida é que a faz valer a pena
ainda que se tenha o último fósforo
para iluminar a escuridão


Helenice Priedols

Já é, de Juleni Andrade


Já é


Da Lua fico encantada com as crateras, posso até imaginar saltos na falta de gravidade, seria como voar. No ar desses outonos sinto os escombros de uma falsa sensação de solidez. A Terra na imensidão, ainda parece grande aos olhos da gente e tem sua fiel seguidora. A Lua é uma farsante que vive a corromper poetas. Mas poetas, com seus fingimentos, alimentam fantasias grandiosas até sobre osminúsculos grãos de areia.

Fico bem quando é outono, já é quase inverno.

A delicadeza das reentrâncias dos mitos trançados na cabeleira vasta da História é algo espantoso. Já impôs outra forma para a Terra, já plantou cavaleiro na Lua, cobrou pedágios nas avenidas do medo, debulhou contas marcadas. E a Lua parece cúmplice dos notívagos, tantos os sanguinários quanto dos loucos inocentes.

Fico bem quando a Lua chega, já é hora de viver.

Do Sol só sei que é vital e por isso é bom. Estar exposta ao astro rei não é das coisas que maravilham meu senso. Todos os dias são tensos, busco abrigo. Vampiresca condição em relação ao raiar. Prefiro esconder minha pele da clareza insuportável, do calor nada cômodo. E no porém que tudo tem, é muito bom saber que o nascer aconteceu e que a vida continua.

Fico bem olhando o poente, já é poesia no céu.


Juleni Andrade

Sueño en olas, de Rosemarie Schossig Torres


Sueño En Olas


Llamo el sueño evocando el mar.
Y duermo en un azul de placidez...
En su imaginario arrullar,
que acuna un dormir en liquidez.

Yo amanezco aún sumergida
en el delirio; la almohada al lado…
Son olas; siguen fluyendo vida.
En la iris el sueño ya casi acabado.

En esas ondas, despierto atontada.
El pulsar del océano sigo oyendo.
Memoria viva de manos mojadas.
La playa continúa ahí me sonriendo.

En los pies: la arena en suave velo,
espuma de ese placentero desatino,
cual sábana suave; piel de terciopelo.
El frenesí va en olas, como vino...


Rosemarie Schossig Torres

Luta de Poeta, de Emanuel Lomelino


Luta de Poeta

Sozinho no meu canto
Que não é secreto
Liberto o meu pranto
E também me liberto
Dou asas ao sentir
E sinto-me em paz
Do pranto vou emergir
E voltar a ser audaz
De mim próprio sou réu
Sem ter culpa formada
Escapar-me-ei do breu
Iniciarei nova jornada
Lutarei contra o mundo
Num combate final
Nem novo golpe profundo
Me poderá fazer mal
Mesmo com nova cicatriz
Não sairei magoado
Sou como o destino quis
Pela vida fui marcado
Já sarei muitas feridas
Recebi imensas facadas
Que nas costas recebidas
São pequenos nadas
Uma vida em aprendizagem
Aprender até morrer
Viver a vida com coragem
É sinal de saber viver
Da luta não vou fugir
Nem tão pouco recuar
Da adversidade vou rir
Contra o medo vou lutar
Neste combate individual
Não há nenhum aliado
Nem vejo um só sinal
De estar acompanhado
Nada correrá para o torto
Pois em mim tenho fé
Mesmo que acabe morto
Saberei morrer de pé

Emanuel Lomelino

Poema extraído do meu livro AMADOR DO VERSO - Temas Originais - 2010

Fazendo parte de três mundos, de Marcia Poesia de Sá


Fazendo parte de três mundos

Há tanta reticência fazendo amor com pensamento, tantos "se"s...
e a cada nova nuvem, seja de esperança ou de tempestade, o poeta viaja
apenas arruma as malas dos versos, tira a poeira da capa e sai...
Vai até a linha imaginária que divide a sanidade a outras coisas
Antes, escova os neurônios com uma escova macia
jamais soube do que ela é feita!

Ha tantos pontos finais se suicidando das linhas
nem eles sabem porque o fazem, apenas fazem
e o poeta vê... sente a dor que não o deixa ponderar
depois, escreve sobre ele... coisas de saudades, rancor e vazio
Pobre ponto final, tão equivocado...

E há aquele mundo que todo poeta adora
o mundo onde os olhos casam com o silêncio, e tem como madrinhas e padrinhos
as utopias e devaneios. É um mundo basicamente lilás e azul turquesa...
lá, as nuvens são levemente doces, e a brisa tem aroma de mirra no final da tarde.
Quando está ensolarado neste mundo, existem vendedores de limonada
eles parecem borboletas e ficam apressados quando a vendedora de virgulas
passa risonha com sua saia de bolinhas...

Viver em mundos tão distintos e permanentemente mutantes entre si
é o que nos dá este ar que dança entre o intimismo e a desatenção.
E nos faz em certos momentos, ver coisas que ninguém vê
e sentir fundo n'alma, essa reticência infinita.


Márcia Poesia de Sá - 23.12.2012

Hiperativo, de Marisa Schmidt


HIPERATIVO...
(inspirado no texto da Ligia Sena- Sobre meninos e cisnes)

No tempo em que era legal ser criança
a pipa no céu, a bola no chão
o talho na perna e o calo na mão
faziam a marca e também a lembrança
de que era assim com toda criança...

Menino agitado era o que tinha saúde
e a curiosidade era parte do enredo
"o homem do saco", se fazia medo
era um desafio tentado à miúde
porque o moleque é que tinha saúde...

Pais, tios, avós, professores, vizinhos
davam bronca, mas também entendiam
que na infância foram assim e até riam
lembrando quando ainda pequeninhos
iam roubar as goiabas dos vizinhos...

Mas hoje que é ilegal ser criança
se espera que sejam meninos-padrão
sentados obesos de tablet na mão
seguindo o rebanho em total confiança
e virou problema o bulício da criança...

A criança levada, hoje é quase anormal
e a falta de espaço se resolve com remédio
com mil atividades e sempre morta de tédio
quando "sarar de ser criança" será livre afinal
para ser então adulto... infeliz e bem normal...


Marisa Schmidt

Trova, de Vera Pimentel


"Os versos são mesmo assim
deixam a alma encantada
e tomam conta de mim
quando estou apaixonada"

Vera Pimentel

Marca-passos dos ponteiros, de Stela Emilia Gusmão


Marca - passos dos ponteiros

Num vaivém de passos
apressados pelas calçadas
faces seguem conduzidas
pelos velozes ponteiros
com o dia negociado
numa frenética corrida.

A busca de muita gente
escamoteando a própria sombra
ecoa sonhos acalentados
em íntimos manifestos
pelas horas aprisionadas
na crueza do trajeto
por vezes sobrevida

que ao passar dos anos
num semblante fosco
dobra as esquinas
 no tempo do relógio
esmaiado, empalidece
exaurido e desalinhado
e, o azul de olhar a vida
vai-se, fenece.

Stela Emilia Gusmão
01/06/08

O Marca-passos de Stela Emilia Gusmão. Os ponteiros não param. A vida prossegue a todo instante. Se cristalizar no passado é...perda de tempo para aventuras presentes... A vida como a vez de realização de sonhos, que, a sua vez, são realizações de desejos...O olhar do relógio para a vida fenece, mas a vida mesmo é um permanente rebroto, renovo que nos encanta, que enfeitiça nossas almas meninas. Julio Cezar Soares

Um segundo, por Michelle Portugal

(imagem retirada da internet)

Um segundo
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Ficou ali parado, ensimesmado com o azul. Notou que o vazio estava pleno e que a plenitude se embebia no vácuo.
Com grãos de silêncio, alimentava o próprio coração quase morto. Fome, sede e solidão. O mar se misturou às lágrimas e então ele abraçou o vento com os olhos fechados. Não sabia nada e já não importava nada saber. Agora, bastava-lhe o sentir, e o sentir o guiaria. Enxugou as lágrimas e sorriu... Um sorriso delicadamente azul.

Michelle Portugal 27/01/2011